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Opostos

Dormia a maior parte do dia. Ocasionalmente acordando para beber ou comer algo. Na verdade, era sempre a mesma coisa. Ele comia sempre a mesma coisa. Espreguiçava-se, mas com elegância. Caminhava até a cozinha lenta e silenciosamente.  Tomava então um gole, comia um pouco e voltava a dormir. Às vezes na cama, às vezes na sala de estar, no sofá. Ia para lá, para a sala, quando desejava só um cochilo,  quando o barulho da digitação dela não incomodava seu sono.
 
De tempos em tempos, ela o assustava um pouco, ao apoiar o copo na mesa de vidro com mais força, ao empurrar uma cadeira ou deixar cair uma caneta no chão. Ele olhava para ela, com seus grandes e brilhantes olhos verdes, e fixava ali o olhar. Poucos minutos depois, voltava a dormir. Passava os dias assim, confinado, praticamente estático. Quando acordado, ou estava comendo, ou olhando, ora para ela, ora através da janela. Raramente emitia som. A vida dela, por outro lado, era repleta de idas e vindas, de altos e baixos, diferentes interesses e possibilidades, angústia e alegria, sonhos e frustrações. Não tinham nada em comum, mas ela voltava para ele, todos os dias. Ele lhe fazia companhia.

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All the faces I've loved

All the faces of men I've loved visit me in the quiet night of my noisy brain All the ones I once loved and came to hate or forget or pretend to have forgotten Lost in the cloud of indifference  I've carefully created
All of them come back  filling the emptiness  of my broken beaten banal heart In this quiet night of my crowded noisy brain
They march firmly towards me
stop and stare Inches away and shoot their questions right between my shortsighted eyes Why? Why not? How much? How little?
They give me no time to answer
They move and vanish like ghosts of the Christmas past Some fierce and revengeful  pass on the judgement they've held in long
You! They shout Too bold! Too coward! Too hot! Too cold! Too little! Too much!
I try to touch a face or another
I remember them Especially the ones I've hidden so well from myself "Hey, look at you!

Quando

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar.



Menino Guerrilheiro

Arrumando o pequeno escritório, jogando coisas fora, abrindo espaço para iniciar a rotina de trabalho, encontrou os recortes de jornal: "Faleceu sábado de ataque cardíaco fulminante" dizia um deles. Os outros repetiam a história do ataque cardíaco, mas ela sabia, desde aquela época que essa não era a verdade. Líder estudantil do seu tempo foi  expulso da Universidade por ter opinião. Perseguido na cidade, viu roubarem os seus sonhos e resistiu. Seguiu para a Guerrilha do Araguaia, lá foi preso, torturado. Quando ela era criança, não se falava disso. Já adolescente, com a abertura, quando estudava história, ele era mencionado, junto a alguns outros amigos da família "Ele fez parte da Guerrilha. Foi preso, torturado. Até hoje passa por uns períodos de depressão." Nada mais. Toda uma geração traumatizada, não conseguiam muito falar do assunto. Tudo muito recente, talvez. O medo ainda uma sombra, logo ali, a espreitar. Ela imaginava um homem adulto, barbado, preso por…