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Gentileza em tempos de selvageria

Plantar gentileza em tempos de selvageria Escolher o sim ou o não Perceber que o verde das folhas não é um único verde Cada uma em suas nuances, suas finas curvas e linhas Como rugas que caminham em nossas faces Cada tom, bandeira, água, amarelado Como os envelopes de cartas de um primeiro amor Eterno em devaneios Leve em bolhas de sabão
E o não saber o que é reto, o que é correto e certo se não o íntegro de si que é nada além da matéria do sonho e o concreto do desejo e do sexo.
Essa busca pelo que é lá no fundo de si Que salta daqui para ali Que não sabe mais ser contido em um continente oco que um dia coube o mundo Hoje vazio e entupido Como se pudesse ser tudo ao mesmo tempo que vácuo
O ontem e o amanhã no mesmo barco porque não se sabe o que é um ou o outro E toda essa história de sim e de não é tão balela quanto essa ideia de gentileza em tempo de selvageria Suportaria talvez um dia? Duraria quem sabe o sopro de uma vela esse amor eterno em fantasia
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Tell them

Tell them my friends are kept awake in the dark Tell them the ones who sleep are on drugs Tell them my students come to the office crying Fearing for their love, fearing for their lives Tell them youth’s eyes show no spark Tell them we see their evil time machine Tell them the brains are calculating scape routes Tell them the shrink’s office is full Tell them I grit my teeth at night Tell them we now don't know what to do
Tell them we were doing other things when they interrupted our dream schemes We were writing poetry taking photographs dancing on the streets raising humanity in our kids Tell them they disturbed our love making and shattered our  loving dreams
Still, tell them they won’t be there forever Tell them they can never ever win Tell them hatred is always temporary Tell its pesticide poisoned fruit is rotten And will not thrive
And you can tell them they can hurt us, tell them we know, because we love They can torture us because we love They can kill us …

Para dentro é para onde vou

Lavando os copos e as taças de espumante que deixei para depois, os copos e taças da última Oficina que coordenei e repousaram ali no fim de semana. Sábado brindávamos o sentimento bom de criar e compor o mundo, de partilhar e acolher o outro. Domingo votávamos e hoje lavo os copos e taças do sábado. Enquanto lavo, me pergunto, como seguirei um trabalho que pretende abrir caminho para a voz de cada um, a voz única consonante e divergente de cada um em um mundo que só quer ouvir “Sim, senhor!” Será possível por muito tempo continuar construindo o que só pôde ser imaginado após as portas se abrirem?
Lavando os copos e as taças, precisei parar, sentar e aqui colocar para fora o que me vai por dentro triste. Não quero conviver mais com tanta gente, não quero mais saber o que tanta gente pensa. Não era assim que vivíamos antes das redes sociais e não somos obrigados a viver assim. Nos últimos tempos, nos últimos votos, fui apresentada ao que pensa gente demais, gente educada, simpática, ge…

Edson, o Gênio

Edson era muito esperto!
Mamãe sempre dizia.
Tudo o que falava,
ela logo alardeava:
"Não é um gênio?!?"

A família era cegueta
E em terra de cego
quem tem um olho é rei
ou o capeta!

Edson acreditava que o que via
com seu olho só
era tudo o que havia
E assim prosseguia!

Mas Edson dormia no ponto
Perdia todos os bondes
E comia tantas, mas tantas, bolas
que um dia rolou ladeira abaixo
e se acabou no precipício.

Fim do Edson!
Amém!

Pilha

Pilha pra carregar brinquedo
Pilha pra funcionar relógio  Menino pilhado  que tem formigueiro na bunda  sem botão de desligar
Botar pilha em amigo  Pilhar alguém pro bem ou pro mal  Acabar a pilha da motivação  Chorar o saque e a pilhagem
A pilha de roupa no tanque A pilha de conta a pagar  Estar uma pilha de nervos  Trocar a pilha da lanterna  pra no escuro não ficar
E tem pilha palha E tem pilha alcalina  Que faz Coelho bater tambor  Pra vida toda e mais um dia  E quem quer tambor de Coelho pra sempre? Um dia a pilha tem que acabar Nem que seja pro Coelho descansar

Resisting in Poetry

“The real poet is always a resistance force. The false poet, however, regardless of the causes he argues to advocate, is always conniving”, the Portuguese writer Sophia de Mello Breyner Andresen stated this in an interview in 1963. One year previous to the military coup d’état suffered by Brazil  which brought us twenty years of dictatorship and an authoritarian and antidemocratic inheritance that keeps so many of us still hostage  as if we were still living a Stockholm syndrome of sorts.

Today, 2018, her words comfort me in my poet’s fate, in my truth and in the fact that I stand surrounded by other very real and resistant poets. We resist together, seeking light in these dark times, in the search of a country where love would be the empire and diversity would triumph. It is in diversity that beauty resides, it is in beauty that poetry inhabits. The beauty found in our day to day struggles, the beauty found in the truth and battles we face, the beauty found in the sweat of our labo…

Resistir na Poesia

“O verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que diz defender, é sempre um conivente” disse Sophia de Mello Breyner Andresen, escritora portuguesa,  em entrevista em 1963. Um ano antes do golpe militar que sofreu o Brasil, em 1964, e que nos trouxe  vinte anos de ditadura e uma herança antidemocrática e autoritária que nos prende a tantos como se vivêssemos ainda uma síndrome de Estocolmo. 

Hoje, 2018, suas palavras me consolam no destino de ser poeta, na minha verdade e no fato de estar cercada de verdadeiros e resistentes outros poetas. Resistimos juntos, na busca da luz nessas trevas, na busca de um país em que impere o amor e triunfe o que é diverso.É no diverso que reside o belo, é no belo que mora a poesia. O belo de cada dia, o belo da garra e da luta, o belo do suor do trabalho, do olhar com respeito e amor, da verdadeira fé no humano.

Pão e Cerco

Um rapaz negro e magro, camiseta e bermudas largas, maiores que ele, me vê sentar à mesa da padaria e se aproxima. O grupo com quem anda já havia me abordado na chegada, quando saía do carro. Eu disfarçara o incômodo por trás de uma pressa mais exagerada: "Agora não posso. Depois! Desculpe!" Entrei pensando no risco de encontrar o carro arranhado na volta. "O risco do risco..."
O rapaz que se aproxima pede o que eu já esperava que pedisse, um lanche, para a família, ou pelo menos para filha pequena. A filha pequena. Meu coração encolhe no peito. Prometo comprar algo para a menina quando for pagar a conta e fico aqui, escolhendo mentalmente algo que dure mais, que renda mais, que alimente mais, quem sabe dê para a família toda: um saco de pão, uma bandeja de presunto, uma caixa de leite, talvez...
O dono da padaria chega manso do meu lado. Pergunta se o pedinte me incomodou. Respondo que não. O dono da padaria me informa que esses pedintes andam agora por aqui, e q…

If there is silence

And if there is silence I will take my time and look at you I will feel your face between my hands and I’ll hope you’ll look back at me
And in this waiting In this looking at each other I won’t find my way back And you too will lose yourself
And if there is silence The uncertain route The awaken awareness will take us back to where we started
Fragments of expanded light will illuminate the absence of sound Clocks will move its insane hands backwards
The world in shock will watch us,  perhaps in ecstasy, perhaps in panic, You and I, in this time travelling You and I, back, to the first moment,  You and I, beginning from the beginning
If there is silence