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Pétala

Delicada e fina, rosa pétala. Como papel de seda. Transparente de tão magra. As ranhuras embranquecendo o rosa pálido. Se água nela caísse, mancharia todo o outro papel em que exponho minhas próprias ranhuras. Sua tinta se misturaria à tinta do meu sentir, do meu pensar e não pensar. Suave rosa e azul na folha de papel. Tudo seria um e, talvez, do caos dessa mistura, eu ainda veria os traçados de mim.
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Viver de amor e palavras

Ele disse: “Era tudo o que eu queria, viver de amor e palavras!” Em pensamento respondi: “Eu também!” Ele, meu amor primeiro, já tinha me dito uma vez que encontrar a palavra certa faz o mundo andar. E eu queria muito encontrar uma palavra que fizesse seu mundo andar. Paixão adolescente, suas palavras me acalentaram por anos e ele nem sabia quem eu era. 
A palavra certa faria seu mundo andar e traria seu olhar para mim. Meus versos saindo da sua boca, em sua voz levemente rouca. Minha irmã diria: “Ah, mas é desafinado!”  Não acho! E se for, me agrada seu desafino. Nunca gostei de nada esteticamente perfeito. Para mim, as imperfeições sempre foram as marcas do que é singular, único. Sempre fui puxada por elas. 
E podem ter havido outros, mais elaborados, mais herméticos, mas o caminhar na sua poesia me leva para dentro de mim, um pouco do que vejo é você e você,  você nem sabe de mim. Um pouco do meu olhar e amor é seu. Um pouco do meu silêncio também é seu. E eu, para você, nem sou. 
Ah,…

Copo

Meio cheio
meio vazio
meio em dúvida
meio a meio

Copo
de vinho
de veneno
de cicuta

Copo
de buteco
listradinho
o melhor pra cerveja

Copo de cristal
pra ser formal
para brindes
que fazem tlim

Copo
que transborda
que entorna
que inunda
Copo


Hoje

Hoje é vazio
É dor nos ombros
É pescoço duro

Hoje é oco
É amigos em antidepressivos
É falta de fôlego

Hoje é nó
É refluxo
É falta de voz

É vazio de esperança
É oco de alegria
É falta de fé

Hoje é o buraco
escuro e fundo
E amanhã?
Amanhã hoje já não é

Marielle

Luta pelos outros
É chamada de cachorra
É negra
Exige direitos
Como tem a pachorra?

Todo dia um 7 a 1
Vive sempre na gangorra
Sem ninguém que lhe socorra
E a linha é sempre fina
entre o justo e a masmorra

E se eu soubesse, tinha gritado:
- Marielle, corra!
Se eu pudesse, tinha implorado:
- Marielle, não morra!


créditos da foto: Márcia Foletto/Agência O Globo

All the faces I've loved

All the faces of men I've loved visit me in the quiet night of my noisy brain All the ones I once loved and came to hate or forget or pretend to have forgotten Lost in the cloud of indifference  I've carefully created
All of them come back  filling the emptiness  of my broken beaten banal heart In this quiet night of my crowded noisy brain
They march firmly towards me
stop and stare Inches away and shoot their questions right between my shortsighted eyes Why? Why not? How much? How little?
They give me no time to answer
They move and vanish like ghosts of the Christmas past Some fierce and revengeful  pass on the judgement they've held in long
You! They shout Too bold! Too coward! Too hot! Too cold! Too little! Too much!
I try to touch a face or another
I remember them Especially the ones I've hidden so well from myself "Hey, look at you!

When

When you are the shadow of a star stretched over the world map, crossing land and water, far and close to your own constellation. When you're here and beyond, when you have everything and long for more still. When you let by gones be by gones and it is possible to be "one and still be plural". When you "see the fine line separating here and there", and upon seeing it, you're not content until you've crossed it. When you wish to be here and yonder and you want to love, to love, to love. 

Quando

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar.



VERBETES: 1- TESÃO

Voz que estremece.  Rosto que toca outro em abraço, ao acaso, e dali não mais sai. Quer mesmo é virar a boca na outra boca. Ali colar e grudar e ficar um, corpo só, um.

Olhar que arrepia, enrubesce. Toque que dura na pele, faz alma, corpo, sexo pulsar. E o pulsar reverbera. Quer apertar morder, comer, engolir inteiro. Triturar, não deixar pedacinho, e ainda lamber os beiços.

É pau duro, é buceta latejante. É desejar consumir, é querer ser consumido. É entrar em combustão e explodir. É embolar e misturar. É dissolver, derreter, não mais ser, escorrer no escoadouro do outro e sumir. 

Mahgrebi

I'm walking alone in the desert
I've walked now for miles 
In silence
The grains of sand blown by the wind 
Leave little cuts on my burnt face

I am alone  I cover my head with a dark magenta shawl  the color of wine or blood 
I walk  My feet sink in the sand My legs feel weak and wobbly  The way they do after a tough swimming practice  I'm a swimmer  But there's no water here
I cover my face with the shawl  Leaving only my eyes free  Being free, they look around  Towards a vastness of nothing  
I keep walking  I am now the mahgrebi everyone says I could be I search 
There's something I need I know I need it  A drink A drug  A magic potion
It's why I keep walking  I gotta have it  I couldn't find it where I came from So I wonder in the desert  but I find no one 
I see a tent in the far distance  to the north of me I recover some strength  I march on the tent's direction but it's never there  where it's supposed to be 
Alone and weary  I lay down on the sand I close my eyes I let myself b…