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Para Talytta

Minha amiga me deu um marcador de livro em forma de borboleta. Carrego agora, comigo, para onde vou. Vejo o sorriso da amiga que se foi, sempre que fecho os olhos. Em sonho, ouço sua voz que também sorria. Era boa, minha amiga. Tão boa, que minha alma desconfiada, duvidou em princípio de tanta bondade. Era suave. Ria das minhas fúrias. E, sei lá porque, dizia me admirar. Minha amiga está hoje no lago em que nado. Outro amigo disse: "Agora você vai nadar com ela", e me fez um carinho. Tenho bons amigos. Minha amiga me viu perder um filho. Hoje vejo seu filho perder a mãe. A minha dor e a perda dele, a minha perda e a sua dor. 

Estava feliz, a minha amiga. A vida começando, os sonhos caminhando. Da última vez que nos falamos, o calor, a praia, o mar... Tinha o mar para amenizar. Há poucas semanas pensara, quando formos a praia será ainda melhor. Sua família, minha família, na praia, as crianças correndo, castelos de areia, alegria e paz. Ao saber da minha amiga, fiquei braba, comigo. Não estava lá, não segurei sua mão, não lhe disse que ela podia também ficar braba, se quisesse, não arrumei seu travesseiro, não molhei seus lábios, não amenizei sua sede. Eu não estava lá. Parece que nunca estou lá. Mais tarde, a igreja, as elaborações, o consolo.  "Está melhor",  "Está com o Pai", eu murmurando: "Pare de levar meus amigos! Pare de levar meus amigos!" 

I'm mourning my friend, a frase me vem enquanto caminho meu caminho de todos os dias, meu caminho de borboletas, flores, folhas vivas e secas. Seu rosto em meu pensamento, seu sorriso, a borboleta saindo do livro que ainda não consegui ler. I'm missing my friend, saudade de nó na garganta, saudade de me deixar furiosa e de brigar com o mundo. "Pare de levar os meus amigos!" Ela ria das minhas brabezas, ela se divertia. Ela riria dessa história, de mim e diria algo que acalmaria minha raiva. Sem querer, ela diria. Era suave, minha amiga. O vento balança as folhas das árvores em frente ao escritório em que trabalho, suave. Eu vou nadar com você, minha amiga, e vou levar você comigo, sempre. 

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All the faces I've loved

All the faces of men I've loved visit me in the quiet night of my noisy brain All the ones I once loved and came to hate or forget or pretend to have forgotten Lost in the cloud of indifference  I've carefully created
All of them come back  filling the emptiness  of my broken beaten banal heart In this quiet night of my crowded noisy brain
They march firmly towards me
stop and stare Inches away and shoot their questions right between my shortsighted eyes Why? Why not? How much? How little?
They give me no time to answer
They move and vanish like ghosts of the Christmas past Some fierce and revengeful  pass on the judgement they've held in long
You! They shout Too bold! Too coward! Too hot! Too cold! Too little! Too much!
I try to touch a face or another
I remember them Especially the ones I've hidden so well from myself "Hey, look at you!

Quando

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar.



Menino Guerrilheiro

Arrumando o pequeno escritório, jogando coisas fora, abrindo espaço para iniciar a rotina de trabalho, encontrou os recortes de jornal: "Faleceu sábado de ataque cardíaco fulminante" dizia um deles. Os outros repetiam a história do ataque cardíaco, mas ela sabia, desde aquela época que essa não era a verdade. Líder estudantil do seu tempo foi  expulso da Universidade por ter opinião. Perseguido na cidade, viu roubarem os seus sonhos e resistiu. Seguiu para a Guerrilha do Araguaia, lá foi preso, torturado. Quando ela era criança, não se falava disso. Já adolescente, com a abertura, quando estudava história, ele era mencionado, junto a alguns outros amigos da família "Ele fez parte da Guerrilha. Foi preso, torturado. Até hoje passa por uns períodos de depressão." Nada mais. Toda uma geração traumatizada, não conseguiam muito falar do assunto. Tudo muito recente, talvez. O medo ainda uma sombra, logo ali, a espreitar. Ela imaginava um homem adulto, barbado, preso por…