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A vida secreta das ilusões

Andava entre aqui e ali, entre lá e cá. A cabeça nas nuvens, os pés nem sempre no chão. Não fora assim toda a vida, tudo era, até há pouco, nitidamente preto e branco, tudo muito certo ou tudo muito errado. Linha traçada em caneta de pena. Tudo claro, tudo às claras. 

Hoje, não. Infinitos tons de imedidas cores, vibrantes tons, extasiam seu olhar e misturam sentimentos e pensamentos. Levam à criação de um mundo novo, exuberante, rico e apavorante. Nesse mundo, não se pisa em chão firme, o chão flutua em pedaços, de um passo a outro, de um salto a outro. Não se sabe se afunda na próxima pisada ou alça vôo e alcança o infinito. Caminha nesse mundo, às vezes com alegria, às vezes com cautela, ou mesmo medo. 

Mundo novo. As cores inebriam, acendem sonhos adormecidos, despertam desejos atordoados, que ressurgem como foguetes lançados ao espaço, incendiários. Tudo novo, tudo mais antigo que o mundo, tudo a aprender, engatinhar. Tanta luz, tanta cor, tanto mundo. Ela acabara de nascer e a vida já estava no meio, para lá do meio. 

Andava aqui e ali, o peso das responsabilidades, os deveres dos sonhos e das paixões. O amor profundo pelo todo do mundo. Lá e cá, entre as infinitas combinações de palavras, as inúmeras mesclas de cores e sentimentos. Para onde seguir? O coelho de Alice a levara para esse outro universo. Se ao menos pudesse localizar esse coelho! Fazer-lhe perguntas, exigir-lhe respostas! Tantos caminhos e bifurcações. E lá se foi o coelho. Agora é seguir. 

Toma decisões, arrisca, teme, comete erros, sofre, perdoa-se. Engatinha apenas. Cambaleia e tem medo, medo de cair, mas segue. Está aprendendo, tentando aprender. Ouve distantes sons, revisita passados remotos, alcança o outro lado do mundo, retorna ao centro do umbigo do eu. Velhos olhos novos observam sem piscar. Ardem os olhos, por vezes. Cansam. Dorme por dias, e noites, e dias. Retorna, ainda está tudo lá. 

Não tem certeza sequer do que busca, mas precisa crer que saberá quando encontrar. E continua, caminha, avança e retorna, em meio à gigante aquarela. Caminha e o caminho se fará. Busca no passado, no futuro, vive o presente, e se mistura às cores todas, e vira arco íris. E brilha. E vira nuvem  e chove. Troveja, relampeja e volta a misturar-se à aquarela, naturalmente difusa, bela em suas invasões de cores. 

Caminha e o caminho se fará. E ela caminha, a água do mar morto até o nariz, e ela mais viva que nunca. O mar morto e o medo da morte. Voltar é impossível, é impensável. Não há mais o que ficou para trás. Não há e não é mais. Ela se entrega ao inevitável e prossegue o caminhar.

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