Monday, April 13, 2015

Para meus amigos


Sempre que chove, penso em um amigo. Quando raspo uma lata de leite condensado, lembro-me de outro. Se recebo uma medalha, outro a recebe comigo. Camisetas de feira, alpargatas de lona, sorrisos tímidos lembram-me do único que me deixou tão cedo. Choro sempre sua ausência, sua perda. Celebro sempre sua presença!

Uma amiga já chorou comigo o choro mais sentido de todas as perdas. Outra já me fez rir no pior momento da minha vida, trazendo alguma luz à escuridão. Outra ainda, riu comigo o meu e o seu pesar. Caminhamos de mãos dadas, rindo do que mais ninguém conhece, do que mais ninguém entende, do que mais ninguém ri. 

Uma amiga fica braba e promete vingança se alguém me maltrata. Um amigo sonha comigo e me liga preocupado. Uma amiga é solar, ri com alegria e me faz mais leve. Um amigo pega no meu pé e inventa histórias para me enrolar, se divertir, me fazer rir.

Uma amiga está sempre ali.  Lembra de mim, reclama a minha ausência. Diz-me do meu valor, lembra da minha importância. Um amigo  diz que eu posso mais, que vou conseguir.  Empurra-me para frente e não duvida de mim. Uma amiga puxa a minha orelha e manda soltar o freio de mão.

Um amigo avisa que lê todos os meus rabiscos e enfatiza: "Todos!" Uma amiga manda em mensagens profundas reflexões sobre esses mesmos rabiscos. Uma amiga mora longe, mas levo no coração. Uma amiga me compra galochas londrinas, um amigo as traz para mim. Uma amiga está ali desde sempre e sabe, em rápido olhar, que chorei. Um amigo me vê e diz "estive pensando em você". Um amigo aguenta todos os meus maus dias e ainda sorri para mim. 

Pensando, hoje, nos meus amigos lembrei do que disse Vinícius: "Eu poderia suportar, não sem dor que morressem todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos." Vinícius parecia separar bem amigos e amores. Não sou assim. Para mim a coisa se complica. Alguns amores são sim amigos queridos e todos os meus amigos são meus mais profundos amores. 

 Assemelho-me  ao poetinha mais quando diz: "Se um deles morrer eu fico torto para um lado". Eu, já torta, aqui estou. "Se todos eles morrerem eu desabo!" Se todos morrerem não restará nada em mim. Sou um pouquinho do que me trazem, do que me dão, cada um deles. Decreto aqui, portanto, uma proibição: Que não se vá mais nenhum! Que fiquemos todos velhinhos e juntinhos. Que sejamos, se possível, "um só defunto", meus amigos, meus amores! 





4 comments:

  1. que lindo texto de uma amiga que escreve coisas lindas

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    1. Valorizo muito o feedback de uma leitora como você, Claudia! Que honra!

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  2. Sei exatamente o que é isso. Me sinto da mesma forma! Beijo!

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