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Retrospectiva

2 idiotas, um na presidência,  um logo abaixo, fora os outros  dois estrupícios, um aqui,  outro lá  0  contribuições para a UNE Zero grana para facilitar um movimento Zero vírgula sete por cento de desenvolvimento  Zero de vergonha na cara da mídia comemorando “a retomada” 1 povo desanimado e adoecido Um povo louco na rua pedindo volta da ditadura  Um dia para celebrar uma injustiça semi remediada  Um dia para se alegrar 9 vezes pensei em desistir, em partir Nove vezes me lembrei de resistir, de persistir Nove escritores no máximo é o que cabe aqui  Mas nove vezes nove vezes nove vezes nove vezes  Nos levarão a algum lugar  Quando ou depois de 2020 chegar 

Resistir na Poesia

“O verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que diz defender, é sempre um conivente” disse Sophia de Mello Breyner Andresen, escritora portuguesa,  em entrevista em 1963. Um ano antes do golpe militar que sofreu o Brasil, em 1964, e que nos trouxe  vinte anos de ditadura e uma herança antidemocrática e autoritária que nos prende a tantos como se vivêssemos ainda uma síndrome de Estocolmo.  Hoje, 2018, suas palavras me consolam no destino de ser poeta, na minha verdade e no fato de estar cercada de verdadeiros e resistentes outros poetas. Resistimos juntos, na busca da luz nessas trevas, na busca de um país em que impere o amor e triunfe o que é diverso.   É no diverso que reside o belo, é no belo que mora a poesia. O belo de cada dia, o belo da garra e da luta, o belo do suor do trabalho, do olhar com respeito e amor, da verdadeira fé no humano.   Sophia nos alerta, também, lá em 1963, ...

Pão e Cerco

Um rapaz negro e magro, camiseta e bermudas largas, maiores que ele, me vê sentar à mesa da padaria e se aproxima. O grupo com quem anda já havia me abordado na chegada, quando saía do carro. Eu disfarçara o incômodo por trás de uma pressa mais exagerada: "Agora não posso. Depois! Desculpe!" Entrei pensando no risco de encontrar o carro arranhado na volta. "O risco do risco..." O rapaz que se aproxima pede o que eu já esperava que pedisse, um lanche, para a família, ou pelo menos para filha pequena. A filha pequena. Meu coração encolhe no peito. Prometo comprar algo para a menina quando for pagar a conta e fico aqui, escolhendo mentalmente algo que dure mais, que renda mais, que alimente mais, quem sabe dê para a família toda: um saco de pão, uma bandeja de presunto, uma caixa de leite, talvez... O dono da padaria chega manso do meu lado. Pergunta se o pedinte me incomodou. Respondo que não. O dono da padaria me informa que esses pedintes andam agora por aq...

Marielle

Luta pelos outros É chamada de cachorra É negra Exige direitos Como tem a pachorra? Todo dia um 7 a 1 Vive sempre na gangorra Sem ninguém que lhe socorra E a linha é sempre fina entre o justo e a masmorra E se eu soubesse, tinha gritado: - Marielle, corra! Se eu pudesse, tinha implorado: - Marielle, não morra! créditos da foto:    Márcia Foletto/Agência O Globo