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Origami

Fina e delicada dobradura. Branca, no meio da sala, apresenta-se diminuta, mas multiplica-se em sua sombra projetada. Símbolo da beleza que se estende de mim ao outro e a mim retorna. Pequeno gesto e presente que me traz alento e me lembra porque importa o que faço. Porque depois de escrever alguém dobra um lindo e leve Tsuru e me devolve as asas que eu ajudei a soltar. 

Quatro velhas bruxas

Quatro velhas bruxas reuniram-se em torno do fogo, em uma noite sem lua. Seus brancos véus de gaze cobriam cabeça e colo. Arrastavam suas alvas túnicas pelo barro vermelho. As barras das vestes sujas pelo barro pareciam manchadas de rubro sangue. Os panos fluidos e finos cobriam corpos fantasmagóricos e esquálidos.  Quatro velhas bruxas reuniram-se em círculo, em torno do fogo, e decretaram: "Ao final da trigésima noite, do oitavo mês, do último ano, do vigésimo primeiro século, as águas criadas pelo homem no umbigo do mundo se erguerão e engolirão cidade, campo, homem e animal." Em círculo, em uma noite sem lua, quatro velhas bruxas determinaram que, a partir de então, não haveria mais setembro.  

Pétala

Delicada e fina, rosa pétala.  Como papel de seda. Transparente de tão magra. As ranhuras embranquecendo o rosa pálido. Se água nela caísse, mancharia todo o outro papel em que exponho minhas próprias ranhuras. Sua tinta se misturaria à tinta do meu sentir, do meu pensar e não pensar. Suave rosa e azul na folha de papel. Tudo seria um e, talvez, do caos dessa mistura, eu ainda veria os traçados de mim. 

Viver de amor e palavras

Ele disse: “Era tudo o que eu queria, viver de amor e palavras!” Em pensamento respondi: “Eu também!” Ele, meu amor primeiro, já tinha me dito uma vez que encontrar a palavra certa faz o mundo andar. E eu queria muito encontrar uma palavra que fizesse seu mundo andar. Paixão adolescente, suas palavras me acalentaram por anos e ele nem sabia quem eu era.  A palavra certa faria seu mundo andar e traria seu olhar para mim. Meus versos saindo da sua boca, em sua voz levemente rouca. Minha irmã diria: “Ah, mas é desafinado!”  Não acho! E se for, me agrada seu desafino. Nunca gostei de nada esteticamente perfeito. Para mim, as imperfeições sempre foram as marcas do que é singular, único. Sempre fui puxada por elas.  E podem ter havido outros, mais elaborados, mais herméticos, mas o caminhar na sua poesia me leva para dentro de mim, um pouco do que vejo é você e você,  você nem sabe de mim. Um pouco do meu olhar e amor é seu. Um pouco do meu silêncio também é seu....

Quando

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar.

Branca de Neve

           Branca de Neve se olha no espelho e passa o protetor solar. Certifica-se de que passou nas orelhas. Da outra vez, esqueceu e passou uma semana com a orelha em brasa. Branca de Neve caminha até  a frutaria. Passada a temporada de maçãs que lhe dá sempre um mal estar inexplicável, ela se sente razoavelmente bem. Branca de Neve trabalha no caixa, o dia todo. A noite pega um ônibus para a faculdade. Faz enfermagem. "Emprego certo!", disse uma tia. Mas o que ela queria mesmo era fazer Veterinária. Sempre teve jeito com bicho. Branca de Neve economiza. Não come nada nos intervalos das aulas. Meia noite quando chega em casa, abre a geladeira e tem um pratinho de feijão com arroz esperando. Frita um ovo. Come e desmaia. Um sono tão pesado que nem sabe como acorda no outro dia. Branca de Neve economiza o dinheiro do lanche e sonha em visitar um castelo na Alemanha. Viu em uma revista. Branca de Neve acorda para mais um dia, toma banho, se olha no esp...