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Sobre os artistas - Para Bruno Sandes

  Créditos da imagem: Jacobs School of Music Marketing and Publicity

Origami

Fina e delicada dobradura. Branca, no meio da sala, apresenta-se diminuta, mas multiplica-se em sua sombra projetada. Símbolo da beleza que se estende de mim ao outro e a mim retorna. Pequeno gesto e presente que me traz alento e me lembra porque importa o que faço. Porque depois de escrever alguém dobra um lindo e leve Tsuru e me devolve as asas que eu ajudei a soltar. 

Quatro velhas bruxas

Quatro velhas bruxas reuniram-se em torno do fogo, em uma noite sem lua. Seus brancos véus de gaze cobriam cabeça e colo. Arrastavam suas alvas túnicas pelo barro vermelho. As barras das vestes sujas pelo barro pareciam manchadas de rubro sangue. Os panos fluidos e finos cobriam corpos fantasmagóricos e esquálidos.  Quatro velhas bruxas reuniram-se em círculo, em torno do fogo, e decretaram: "Ao final da trigésima noite, do oitavo mês, do último ano, do vigésimo primeiro século, as águas criadas pelo homem no umbigo do mundo se erguerão e engolirão cidade, campo, homem e animal." Em círculo, em uma noite sem lua, quatro velhas bruxas determinaram que, a partir de então, não haveria mais setembro.  

Pétala

Delicada e fina, rosa pétala.  Como papel de seda. Transparente de tão magra. As ranhuras embranquecendo o rosa pálido. Se água nela caísse, mancharia todo o outro papel em que exponho minhas próprias ranhuras. Sua tinta se misturaria à tinta do meu sentir, do meu pensar e não pensar. Suave rosa e azul na folha de papel. Tudo seria um e, talvez, do caos dessa mistura, eu ainda veria os traçados de mim. 

Quando

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar.

O comprimido

Uma pílula, um comprimido. Tomar um por dia, me disse o médico. Nunca me lembro de tomar essa porra! Um remédio desses que é ruim com ele, pior sem ele. Tem um outro que vai junto, menorzinho. Esse é um troço comprido que, pode parecer ridículo, mas se tomar com muita água, boia na boca e não desce, depois fica aquele gosto amargo na língua. Se tomar com pouca água, entala. Quase morro da última vez. Juro que fiquei roxa. Moro só e achei que ia ser encontrada pelo porteiro daí a uma semana, quando sentissem meu cheiro de podre no corredor. Os vizinhos reclamariam e viriam com o porteiro arrombar a porta. Lá estaria eu, morta, roxa como uma beringela, as baratas passeando pelo meu cadáver. Dias depois ainda seria o comentário do prédio: "Mas, morreu de quê?" "Ah, menina, você não vai acreditar! Morreu entalada com um comprimido!" 

Recém casados

Recém-casados, um apartamento de dois quartos para um casal. Parecia muito, a princípio, um privilégio. Não tinham filhos. Tem gente que mora em um quarto e sala com oito meninos. Dormem uns por cima dos outros, amontoados, redes por cima de redes. Eles tinham um escritório. Olha o luxo! E uma cozinha americana! O problema é que para onde ela se virava, lá estava ele, um sorriso nos lábios e aquele olhar tranquilo. E tudo que ela pensava era: "Meu Deus, agora para onde eu me virar vou dar de cara com ele? Ganhei essa sombra! Aff!" Disfarçava, sorria de volta, um sorriso daqueles que não mostram os dentes, só empurram as bochechas para os lados. Até que acordou um dia e foi escovar os dentes, a pasta de dentes apertada no meio.  Deu um grito. Ele correu para a porta solícito. Era demais! O rosto queimando, berrou: "Olha, assim não dá! Eu preciso do meu espaço!"  Saiu marchando, bateu a porta, andou uns 20 minutos em volta do quarteirão. Quando a respiração voltava ...