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Showing posts with the label Muito pessoal

Brigadeiro

Uma panela velhinha, o fundo equilibra-se instável na boca do fogo baixo. As alças foram repostas há vinte, trinta anos... A panela tem mais idade. As alças pretas combinam hoje com as diversas manchas negras de tempo e de uso. Hoje em meio ao isolamento social que ultrapassa os cem dias, eu fiz brigadeiro nessa panela.  A mesma receita que era dela: Uma lata de leite condensado, quatro colheres de chocolate, bem cheias, e duas colheres de manteiga ,tão cheias quanto as outras. Cada volta da colher me levou de novo à ela, a seu sorriso, a seu cantarolar e sua voz me sussurrou, mais uma vez, que o ponto é quando a gente vira a panela e a massa brilhante do doce movimenta-se una e uniforme, deixando aparecer a  que ficou no fundo. “Não raspe a panela! Deixe cair em um prato fundo apenas o que se solta dela.” O que fica, com seus furinhos aerados, é a raspa. É, talvez, como o passado do brigadeiro. A gente pode até degusta-la um pouquinho, voltar a ela, mas ela...

Canto M(eu) - A bilingual reflection on being me.

Sou o tipo de pessoa que não sabe de onde é ou o que lhe define. Saí cedo de onde nasci e cresci em outro canto, com gente de tanto canto, que também não sei se eles mesmos sabem de que canto são. Eu não sei. Por um tempo achava que esse lugar para onde fui trazida era o melhor lugar: “Nesse país lugar melhor não há”. Acho mais não. Acho mais nada, porque por outros lugares andei, em outras paragens parei. E muito que admirei belezas e singelezas “que não encontro por cá”. O que sei, hoje, é que se sou esse tipo de pessoa sem canto pra chamar de meu, faço meu canto dentro do meu próprio eu. ... I’m the kind of person who does not know where she’s from or what defines her. I left early the place where I was born and came to grow up in yet another place, with people from such different places, that I don’t know as well if they themselves do know to which place they belong. I don’t. For a while I thought this place they brought me to was the best place of all place...

Origami

Fina e delicada dobradura. Branca, no meio da sala, apresenta-se diminuta, mas multiplica-se em sua sombra projetada. Símbolo da beleza que se estende de mim ao outro e a mim retorna. Pequeno gesto e presente que me traz alento e me lembra porque importa o que faço. Porque depois de escrever alguém dobra um lindo e leve Tsuru e me devolve as asas que eu ajudei a soltar. 

If I imagine I hold something in my hands

If you tell me to imagine I'm holding something in my hands. And if you tell me to write about this imaginary object. This thing I imagine will unavoidably be a soap bubble. I have come to terms with my obsession for soap bubbles. It does not mean I understand where it comes from. This understanding is probably part of my mission on Earth, our blue little planet floating away in the universe like one little bubble itself. There is, perhaps,  right there an explanation in the fact that the world we live may be seen as a soap bubble from afar. Perhaps, that is a small part of the whole explanation, the impermanence of life in its large and small concerns, the frailty and beauty of our human dreams. Our imperfect connexions, our frustrated attempts to be truly seen and contemplated, our impossibility of floating towards the other without creating some kind of damage, even if unintentionally. Our flaws, our protective covers scretching against the skin of the ones we love, like th...

Clarice disse

Clarice Lispector disse “viver ultrapassa qualquer entendimento”. Hoje é aniversário de Clarice e escrevemos todas em volta da mesa. Não nascemos na Ucrânia. No máximo, umas vieram da beira do mar e outras brotaram aqui mesmo, neste cerrado em que nascem vermelhas Caliandras.  Em Clarice pensamos hoje. E juntas em volta da mesa, escrevemos e partilhamos escritos. Mulheres que somos, hoje, unidas em torno deste ofício de desnudar-se at ravés das palavras tal qual o fez Clarice, embora cada uma diferentemente.  Admiro, nelas, os cabelos que caem aos olhos, os fios que escorrem pelas nucas, as canetas que correm pelo papel seguradas por mãos urgentes, e poucas vezes hesitantes, o tec tec do teclado dos laptops. Admiro a fé e a dúvida que compartilham no humano e no divino. Reconheço sua beleza e felicito-me por partilharem comigo e deixarem um pouco de seu ver e seu viver.  Sentadas em volta desta mesa, não interessa se somos Clarice. Não precisamos ser. Homena...

Para dentro é para onde vou

Lavando os copos e as taças de espumante que deixei para depois, os copos e taças da última Oficina que coordenei e repousaram ali no fim de semana. Sábado brindávamos o sentimento bom de criar e compor o mundo, de partilhar e acolher o outro. Domingo votávamos e hoje lavo os copos e taças do sábado. Enquanto lavo, me pergunto, como seguirei um trabalho que pretende abrir caminho para a voz de cada um, a voz única consonante e divergente de cada um em um mundo que só quer ouvir “Sim, senhor!” Será possível por muito tempo continuar construindo o que só pôde ser imaginado após as portas se abrirem? Lavando os copos e as taças, precisei parar, sentar e aqui colocar para fora o que me vai por dentro triste. Não quero conviver mais com tanta gente, não quero mais saber o que tanta gente pensa. Não era assim que vivíamos antes das redes sociais e não somos obrigados a viver assim. Nos últimos tempos, nos últimos votos, fui apresentada ao que pensa gente demais, gente educada, ...

Resistir na Poesia

“O verdadeiro poeta é sempre um resistente. Mas o falso poeta, sejam quais forem as causas que diz defender, é sempre um conivente” disse Sophia de Mello Breyner Andresen, escritora portuguesa,  em entrevista em 1963. Um ano antes do golpe militar que sofreu o Brasil, em 1964, e que nos trouxe  vinte anos de ditadura e uma herança antidemocrática e autoritária que nos prende a tantos como se vivêssemos ainda uma síndrome de Estocolmo.  Hoje, 2018, suas palavras me consolam no destino de ser poeta, na minha verdade e no fato de estar cercada de verdadeiros e resistentes outros poetas. Resistimos juntos, na busca da luz nessas trevas, na busca de um país em que impere o amor e triunfe o que é diverso.   É no diverso que reside o belo, é no belo que mora a poesia. O belo de cada dia, o belo da garra e da luta, o belo do suor do trabalho, do olhar com respeito e amor, da verdadeira fé no humano.   Sophia nos alerta, também, lá em 1963, ...

Pão e Cerco

Um rapaz negro e magro, camiseta e bermudas largas, maiores que ele, me vê sentar à mesa da padaria e se aproxima. O grupo com quem anda já havia me abordado na chegada, quando saía do carro. Eu disfarçara o incômodo por trás de uma pressa mais exagerada: "Agora não posso. Depois! Desculpe!" Entrei pensando no risco de encontrar o carro arranhado na volta. "O risco do risco..." O rapaz que se aproxima pede o que eu já esperava que pedisse, um lanche, para a família, ou pelo menos para filha pequena. A filha pequena. Meu coração encolhe no peito. Prometo comprar algo para a menina quando for pagar a conta e fico aqui, escolhendo mentalmente algo que dure mais, que renda mais, que alimente mais, quem sabe dê para a família toda: um saco de pão, uma bandeja de presunto, uma caixa de leite, talvez... O dono da padaria chega manso do meu lado. Pergunta se o pedinte me incomodou. Respondo que não. O dono da padaria me informa que esses pedintes andam agora por aq...

Viver de amor e palavras

Ele disse: “Era tudo o que eu queria, viver de amor e palavras!” Em pensamento respondi: “Eu também!” Ele, meu amor primeiro, já tinha me dito uma vez que encontrar a palavra certa faz o mundo andar. E eu queria muito encontrar uma palavra que fizesse seu mundo andar. Paixão adolescente, suas palavras me acalentaram por anos e ele nem sabia quem eu era.  A palavra certa faria seu mundo andar e traria seu olhar para mim. Meus versos saindo da sua boca, em sua voz levemente rouca. Minha irmã diria: “Ah, mas é desafinado!”  Não acho! E se for, me agrada seu desafino. Nunca gostei de nada esteticamente perfeito. Para mim, as imperfeições sempre foram as marcas do que é singular, único. Sempre fui puxada por elas.  E podem ter havido outros, mais elaborados, mais herméticos, mas o caminhar na sua poesia me leva para dentro de mim, um pouco do que vejo é você e você,  você nem sabe de mim. Um pouco do meu olhar e amor é seu. Um pouco do meu silêncio também é seu....

Hoje

Hoje é vazio É dor nos ombros É pescoço duro Hoje é oco É amigos em antidepressivos É falta de fôlego Hoje é nó É refluxo É falta de voz É vazio de esperança É oco de alegria É falta de fé Hoje é o buraco escuro e fundo E amanhã? Amanhã hoje já não é

Marielle

Luta pelos outros É chamada de cachorra É negra Exige direitos Como tem a pachorra? Todo dia um 7 a 1 Vive sempre na gangorra Sem ninguém que lhe socorra E a linha é sempre fina entre o justo e a masmorra E se eu soubesse, tinha gritado: - Marielle, corra! Se eu pudesse, tinha implorado: - Marielle, não morra! créditos da foto:    Márcia Foletto/Agência O Globo

Quando

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar.

Merit

In a world of meritocracy, you receive an inheritance. Not a big fortune, but some money to help pay your debts, help a relative who fell ill. You are grateful, but you did not merit this. You never did anything for it. You think about how many will never be covered by a rain of golden coins fallen from the sky, while some swim in pools of money, modern times uncle Scrooges destilating hatred towards any step directed to the sharing of wealth in the world and holding on to the belief that they earned what they have. It is such the world.  Your daughter helped a friend cheat at a school test and got caught.  She was punished with a big F on her exam. She cries and explains to you she was only trying to help a desperate friend. Deep inside you understand her feelings,  but you agree she has to learn that helping a dishonest deed is the same as doing it. Some other parents heard of the situation. They talk to you and seem shocked by the school's decision to punish ...

Lembranças, mudanças e rumos

Uma amiga me diz que nos anos setenta, houve uma infestação de ratos em Brasília e que eles saiam pelo ralo do bidê  e entravam nos apartamentos da Asa Norte. Ela pergunta se eu não me lembro. Não lembro. "Mesmo? Não lembra?" Não lembro. Não lembro da infestação, não lembro de comentários, notícias. Respondo que era muito pequena, mas ela é mais nova que eu. Sorrio sem graça, sem mostrar os dentes: "É, não lembro." O que lembro é de sempre ter tido medo de ratos, mais do que de baratas. E de sempre sonhar com eles em tempos de angústia, preocupação. Uma vez vi um video de um churrasco na casa dos meus país em que tento alertar minha mãe da passagem de um rato e ela me ignora. De certo não queria chamar a atenção dos convidados para a presença do animal asqueroso que corria no canto da cerca. Não queria interromper sua cantoria e seu ensolarado dia de domingo e, por isso, ignorou completamente a fala da criança inconveniente. Uma amiga me contou também  que já ...