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Showing posts with the label Em português

No espelho

  Olhei hoje para o espelho e me vi mais serena, me enxerguei com mais leveza. Não que esteja de fato mais leve, eu acho. Ou será que estou? Tenho ainda infinitas incertezas e dúvidas aos milhares, mas a imagem que me olhou de volta do espelho, não me olha com tristeza, dor pânico.     A imagem que vejo nesse espelho é de     calma, no olhar certa paz, talvez de se entender humana, imperfeita e aceitar essa condição.     Aqui, deste lado que estou, me observando no espelho, sinto ainda o coração encolher como se uma mão o quisesse esmagar. Encolhe-se para sobreviver e expande-se em seguida. Ao encolher-se, a respiração dá uma pausa e uma bolha de cristal sobe em refluxo, pausando ali no meio da goela. Assim que pode, o coração retorna a seu pulsar, seu ir e vir. Permanecem ali as dúvidas, as exigências, as demandas, mas também os desejos de só ser, irresponsavelmente ser e atender a cada quimera. Porque a vida é curta! A vida é sopro!    E o ...

Sobre os artistas - Para Bruno Sandes

  Créditos da imagem: Jacobs School of Music Marketing and Publicity

Meta

Carvar em si a própria história Que linhas sejam  infinitas e tantas  que  a o fim não sobre centímetro descoberto Sentar-se então  sobre crenças e sentimentos em equilíbrio leve e sutil Alcançar a paz de saber-se vivo e vivido  De guardar em si o de onde veio E levar-se junto aonde quer que se vá. 

De onde vim

Eu vim de azulejos portugueses, Guaraná Jesus  e chiclete ploc.  Vim da casa avarandada de cerâmica fria e brisa morna,  de banho de bica e de chuva no quintal  Sou o Babaçu que ondula Eu vim de torta de camarão e banho de mar De Santos e de Sales  Sou de verdades ditas na cara e de choro fácil De não usar calça de veludo deixando a bunda de fora e não se abaixar muito porque o fundo aparece Eu vim da ilha, do caranguejo na água fervente, do peixe frito com farinha d’água Vim de quem fumou desde os catorze e morreu de câncer de pulmão,  de quem encheu cinco livros de palavras para esquecer de todas elas Eu sou do Hospital Português, das vastas brancas areias e das águas turvas do mar.  Baseado no poema Where I’m From de George Ella Lyon 

2020

2     - 0     - 2 - 0     Números que se repetem e intercalam 20  e 20  Como jovem, como juventude,  como dois e dois são quatro 2+0 é 2,  2 + 2 = 4,  mas se dividir por 2,   É 2, de novo!  Não vai dar pra andar só esse ano. É melhor andar, pelo menos,  de dois em dois. 

Retrospectiva

2 idiotas, um na presidência,  um logo abaixo, fora os outros  dois estrupícios, um aqui,  outro lá  0  contribuições para a UNE Zero grana para facilitar um movimento Zero vírgula sete por cento de desenvolvimento  Zero de vergonha na cara da mídia comemorando “a retomada” 1 povo desanimado e adoecido Um povo louco na rua pedindo volta da ditadura  Um dia para celebrar uma injustiça semi remediada  Um dia para se alegrar 9 vezes pensei em desistir, em partir Nove vezes me lembrei de resistir, de persistir Nove escritores no máximo é o que cabe aqui  Mas nove vezes nove vezes nove vezes nove vezes  Nos levarão a algum lugar  Quando ou depois de 2020 chegar 

Esse amarelo

É como sol de verão É como ouro de mina É vestido de praia  com flor vermelha, folha verde É a leveza e a alegria, que fácil, anos atrás, hoje,  não vem sem esforço É sorriso  de menina moleca  que corre e dá estrelinha  E aprende sozinha  É vitamina D na pele  É vitamina C borbulhando  na água gelada É correr, rindo, pulando  e se jogar no azul do frio mar É a bolinha do biquíni,  tão pequenininho  É a sombrinha que enfeita  o drink multicor   É o manto de luz que cobre o dia É a  estrada de tijolinhos  que vai  daqui para Oz É a vela do barco que me leva  a um lugar mais feliz

Folha

Fora folha Verde, vívida, pulsando luz em foto e síntese Fora folha Agora, é hora de ser outra coisa da matéria dos sonhos, fina transparência Fora folha Agora, esboço de artista Delicados detalhes de um dia em que fora Folha, fina, finda lenta, transparece o interno Resta, só, a ilusão do que um dia fora folha Resta a raridade do que teve raiz, que dançou com o vento,  que caiu das alturas Fora folha, transparente sendo, quase, hoje já não é mais . É jóia, bela, É outra, é paz.

Canto M(eu) - A bilingual reflection on being me.

Sou o tipo de pessoa que não sabe de onde é ou o que lhe define. Saí cedo de onde nasci e cresci em outro canto, com gente de tanto canto, que também não sei se eles mesmos sabem de que canto são. Eu não sei. Por um tempo achava que esse lugar para onde fui trazida era o melhor lugar: “Nesse país lugar melhor não há”. Acho mais não. Acho mais nada, porque por outros lugares andei, em outras paragens parei. E muito que admirei belezas e singelezas “que não encontro por cá”. O que sei, hoje, é que se sou esse tipo de pessoa sem canto pra chamar de meu, faço meu canto dentro do meu próprio eu. ... I’m the kind of person who does not know where she’s from or what defines her. I left early the place where I was born and came to grow up in yet another place, with people from such different places, that I don’t know as well if they themselves do know to which place they belong. I don’t. For a while I thought this place they brought me to was the best place of all place...

Origami

Fina e delicada dobradura. Branca, no meio da sala, apresenta-se diminuta, mas multiplica-se em sua sombra projetada. Símbolo da beleza que se estende de mim ao outro e a mim retorna. Pequeno gesto e presente que me traz alento e me lembra porque importa o que faço. Porque depois de escrever alguém dobra um lindo e leve Tsuru e me devolve as asas que eu ajudei a soltar. 

Clarice disse

Clarice Lispector disse “viver ultrapassa qualquer entendimento”. Hoje é aniversário de Clarice e escrevemos todas em volta da mesa. Não nascemos na Ucrânia. No máximo, umas vieram da beira do mar e outras brotaram aqui mesmo, neste cerrado em que nascem vermelhas Caliandras.  Em Clarice pensamos hoje. E juntas em volta da mesa, escrevemos e partilhamos escritos. Mulheres que somos, hoje, unidas em torno deste ofício de desnudar-se at ravés das palavras tal qual o fez Clarice, embora cada uma diferentemente.  Admiro, nelas, os cabelos que caem aos olhos, os fios que escorrem pelas nucas, as canetas que correm pelo papel seguradas por mãos urgentes, e poucas vezes hesitantes, o tec tec do teclado dos laptops. Admiro a fé e a dúvida que compartilham no humano e no divino. Reconheço sua beleza e felicito-me por partilharem comigo e deixarem um pouco de seu ver e seu viver.  Sentadas em volta desta mesa, não interessa se somos Clarice. Não precisamos ser. Homena...

Gentileza em tempos de selvageria

Plantar gentileza em tempos de selvageria Escolher o sim ou o não Perceber que o verde das folhas não é um único verde Cada uma em suas nuances, suas finas curvas e linhas Como rugas que caminham em nossas faces Cada tom, bandeira, água, amarelado Como os envelopes de cartas de um primeiro amor Eterno em devaneios Leve em bolhas de sabão E o não saber o que é reto, o que é correto e certo se não o íntegro de si que é nada além da matéria do sonho e o concreto do desejo e do sexo. Essa busca pelo que é lá no fundo de si Que salta daqui para ali Que não sabe mais ser contido em um continente oco que um dia coube o mundo Hoje vazio e entupido Como se pudesse ser tudo ao mesmo tempo que vácuo O ontem e o amanhã no mesmo barco porque não se sabe o que é um ou o outro E toda essa história de sim e de não é tão balela quanto essa ideia de gentileza em tempo de selvageria Suportaria talvez um dia? Duraria quem sabe o sopro de...

Se houver silêncio

Se houver silêncio Vou te olhar com calma Sentir sua face entre minhas mãos e esperar que também olhe para mim E nessa espera De um olhar para o outro Não encontrarei o caminho de volta E você também se perderá E se houver silêncio A rota incerta A consciência desperta nos levará de volta ao princípio Fragmentos de luz expandida iluminarão a ausência de som Relógios retrocederão seus ponteiros enlouquecidos O mundo pasmo observará, talvez em êxtase, talvez em pânico, eu e você, nessa viagem no tempo Eu e você, de volta, ao primeiro momento, Eu e você, começando do começo Isso, se houver silêncio

Viver de amor e palavras

Ele disse: “Era tudo o que eu queria, viver de amor e palavras!” Em pensamento respondi: “Eu também!” Ele, meu amor primeiro, já tinha me dito uma vez que encontrar a palavra certa faz o mundo andar. E eu queria muito encontrar uma palavra que fizesse seu mundo andar. Paixão adolescente, suas palavras me acalentaram por anos e ele nem sabia quem eu era.  A palavra certa faria seu mundo andar e traria seu olhar para mim. Meus versos saindo da sua boca, em sua voz levemente rouca. Minha irmã diria: “Ah, mas é desafinado!”  Não acho! E se for, me agrada seu desafino. Nunca gostei de nada esteticamente perfeito. Para mim, as imperfeições sempre foram as marcas do que é singular, único. Sempre fui puxada por elas.  E podem ter havido outros, mais elaborados, mais herméticos, mas o caminhar na sua poesia me leva para dentro de mim, um pouco do que vejo é você e você,  você nem sabe de mim. Um pouco do meu olhar e amor é seu. Um pouco do meu silêncio também é seu....

Mulher Trófeu

Gripada, entupida, o nariz ressecado ardia ao tentar respirar, ferido.  Lenço de papel por todo lado. Aquelas bolinhas amassadas. Tinha passado o dia de pijama, um robe de flanela por cima. Arrastava o cinto do robe aberto pelo chão. O celular já tinha tocado umas três vezes. Não quis atender. Primeiro, porque não tinha voz. Depois, porque não tinha o que dizer. E era ele, ela sabia. E ela tinha certeza que ia ouvir um sermão.  Lembrava vagamente da besteira que tinha feito. Não queria saber os detalhes. Ele sabia que ela não queria ter ido. Festa de rico chato. Uma pista de dança enorme e uns gatos pingados dançando os mesmos movimentos ensaiados, com muito cuidado para não assanhar a chapinha, nem derreter o gel. "Gente errada com a conta corrente certa!" A turma era péssima, mas a bebida era farta. "Acho que nem eles se aguentam se não encherem a cara." Provou um drink azul. Rafael conversava com um cara de sorriso tão simétrico que era impossível que fosse real....

Maio, 2017 - Fim de tarde em Brasília

Um burburinho de barzinho no fim de tarde. Tudo parece igual. Amigos se encontram no Café, grupos ocupam as mesas maiores. Adoram sentar-se ao lado de quem lê um livro, de quem está só. Desconfiam dessa solidão e afrontam-na.    Alguém solta uma gargalhada alta.    Tudo normal, tudo como antes. A música contorna as conversas e risadas: “Cai o rei de espadas, cai o rei de ouro, cai o rei de paus, cai não fica nada…” Nada é, na verdade, como antes, como o dia de ontem. Hoje, o ar que se respira é grosso, agressivo e sufocante. Nada, abaixo da epiderme do mundo está igual. A brisa leve não engana. Refresca o corpo, mas a alma treme. Agora, toca Roda-Viva. “Como pode? Ontem mesmo era ano 2000.” Quando o golpe se deu e as ideias estapafúrdias começaram a surgir com projetos que tinham o nome de músicas da minha infância, regravações dos anos 80 começaram a entupir os programas de rádio. Hoje, Elis e Chico ressurgem nesse Café, fazendo o sentido que já não faziam ...

Olhos de rio

Não sabia o que fazer,  não sabia o que esperar Contava as estrelas,  até o barco chegar,  deixava o rio passar Sozinho, à margem Ohos de rio que segue  pro mar E leva tudo,  seguindo sempre sem medo,  Olhos de rio, Correnteza que traga  tudo, sempre sempre e repetidas vezes, tudo e repetidas vezes Caminha  mais,  um pouco mais,  um pouco além Segue a margem Na segunda curva,  olha pra trás  Se vê, longe,  pequeno Tanto tempo, tanta dúvida, tanto caminhar,  tanto,   sem ir  a nenhum lugar   Vê  os sonhos,  Deixou escapar Segue  adiante,  olhos de rio transbordantes, misturando outras águas Caminha,  muda, transmuta       Olhos de rio, finalmente mar

Plano pra ficar malhado

Ele tinha um plano Estava muito animado Ia ficar bombado Tudo já determinado Um roteiro organizado  Para ser super sarado Chegou na academia O plano fora cancelado Ele então ficou bolado Mas quando voltou pra casa  Viu os halteres quebrados Os suplementos trancados  Com dois cadeados pado Como ficou chateado  A mãe sorria na porta E ele a olhou magoado  Não queria o filho malhado  fortão, todo marombado  Suspirou, conformado  Seu plano desmantelado Ela, tomou-o pela mão Abrindo lá na cozinha uma panela de barreado Cozinheira de mão cheia Dessas de forno e fogão Ele abriu um sorrisão Repetiu a farinha e ficou mais animado Esqueceu aquele plano de ficar todo malhado  A comida da mamãe era assunto complicado  pra deixar assim de lado

Lembranças, mudanças e rumos

Uma amiga me diz que nos anos setenta, houve uma infestação de ratos em Brasília e que eles saiam pelo ralo do bidê  e entravam nos apartamentos da Asa Norte. Ela pergunta se eu não me lembro. Não lembro. "Mesmo? Não lembra?" Não lembro. Não lembro da infestação, não lembro de comentários, notícias. Respondo que era muito pequena, mas ela é mais nova que eu. Sorrio sem graça, sem mostrar os dentes: "É, não lembro." O que lembro é de sempre ter tido medo de ratos, mais do que de baratas. E de sempre sonhar com eles em tempos de angústia, preocupação. Uma vez vi um video de um churrasco na casa dos meus país em que tento alertar minha mãe da passagem de um rato e ela me ignora. De certo não queria chamar a atenção dos convidados para a presença do animal asqueroso que corria no canto da cerca. Não queria interromper sua cantoria e seu ensolarado dia de domingo e, por isso, ignorou completamente a fala da criança inconveniente. Uma amiga me contou também  que já ...

O comprimido

Uma pílula, um comprimido. Tomar um por dia, me disse o médico. Nunca me lembro de tomar essa porra! Um remédio desses que é ruim com ele, pior sem ele. Tem um outro que vai junto, menorzinho. Esse é um troço comprido que, pode parecer ridículo, mas se tomar com muita água, boia na boca e não desce, depois fica aquele gosto amargo na língua. Se tomar com pouca água, entala. Quase morro da última vez. Juro que fiquei roxa. Moro só e achei que ia ser encontrada pelo porteiro daí a uma semana, quando sentissem meu cheiro de podre no corredor. Os vizinhos reclamariam e viriam com o porteiro arrombar a porta. Lá estaria eu, morta, roxa como uma beringela, as baratas passeando pelo meu cadáver. Dias depois ainda seria o comentário do prédio: "Mas, morreu de quê?" "Ah, menina, você não vai acreditar! Morreu entalada com um comprimido!"